Actualmente somos inundados de notícias alarmantes, umas insinuando erros dos Juízes por não aplicarem medidas coactivas mais rigorosos (soltam, dizem os media), outras insinuando erros médicos que conduzem à morte.
É ciência certa que errar é próprio do ser humano, não existindo ninguém que possa dizer que nunca errou, na sua vida pessoal ou na sua vida profissional.
Dando de barato que possam existir erros nas decisões dos magistrados judiciais e nas decisões médicas, a verdade é que com eles manifestamos enorme intolerância, como se todos pudessem errar menos os Juízes e os Médicos.
Não tenho acesso às suas folhas de vemcimentos, mas acredito que serão duas das mais bem pagas profissões, uma das quais levou mesmo o actual PR, à data Primeiro Ministro, a propor uma lei, aprovada parlamentarmente, segundo a qual ninguém poderia ganhar mais que o Primeiro Ministro.
Olho para a forma como olhamos estas duas classes profissionais e logo me vem à ideia o pobre do guarda-redes de uma equipa de futebol. Os defesas, os médios e os avançados falham a marcação a um adversário, dessa falha resulta um golo e todos olham para o guarda-redes que foi incapaz de deter a bola. O avançado falha um golo certo e, tal como quando falham a marcação do adversário e é golo, ninguém os acusa, põe em causa o seu profissionalismo, o seu brio. Já o guarda-redes, sofre tratos de polé, como se a culpa de todas as derrotas fossem suas.
Também aqui todos podem falhar. O advogado pode não ter usado todos os meios ao seu alcance para vencer a causa e ninguém o acusa de nada. Os funcionários judiciais podem falhar num qualquer acto processual e ninguém os acusa, salvo os casos em que o próprio Juíz os acusa do lapso em sede própria.
Mas ai do Juíz que decide algo que não se conforma com a ideia que cada um forma daquele caso, que na prática não conhecemos mais do que nos é oferecido pelos media ou em conversas de café.
Deles e das suas capacidades profissionais, oiço o que Mofama não ousou dizer do toucinho, quantas vezes entrando mesmo na bárbara ofensa à sua dignidade e honestidade.
É verdade que o silêncio a que se remetem os magistrados judiciais, a forma como encaram essas reacções, como se fosse algo que resvala na carapaça da sua indiferença, em muito tem contribuido para que o rumor aumente exponencialmente, atingindo hoje um ensurdecedor ruído que não deixa ninguém indiferente, mas não podem continuar em silêncio, relevando as acusações como se produzidas por ignorantes e, por isso, sem importância, porque não há silêncio, o barulho aumenta e não só uma mentira repetida várias vezes, pode transformar-se em verdade, mas mais importante ainda, no dia em que a confiança nos magistrados judiciais cessar (e ela está a um nível tão baixo que assusta), não há confiança na Justiça e o Estado de Direito não se concretiza.
Porque a minha confiança nos magistrados judiciais é ilimitada, exorto-os a largarem o silêncio a que se remeteram, impondo o esclarecimento dos casos que geram as notícias alarmantes, as quais, depois de explicadas todos perceberiam melhor a razão para a decisão e mudariam o alvo da contestação para quem produziu um Código do Processo Penal que envergonha um País que quer viver num Estado de Direito.
A Justiça e os magistrados judiciais não são externos à sociedade, dela fazem parte integrante e activa, com enorme importância na regulação das relações entre pessoas, pelo que não podem, não devem, ignorar aqueles a quem se destina a realização da justiça, presente ou futura.
Já os médicos, sujeitos a restrições no seu trabalho que só são imagináveis em Países menores (um exame complementar de diagnóstico é, para a Administração Geral de Saúde um luxo, imaginem) decidem com base no quadro clínico que o doente lhes oferece, pelo seu exame e pelas suas queixas, formulam um diagnóstico (e quantas doenças manifestam sintomas semelhantes, originando falsos diagnósticos que sem os tais exames complementares podem revelar-se um drama humano) e decidem.
E aqui, é curioso notar que aqueles que são também eles mal-tratados pelas suas decisões, revelam pouca sensibilidade para as condições e dificuldades em que os médicos elaboram os seus diagnósticos, censurando-os e condenando-os, quanto mais não seja porque devem ser responsabilizados como médicos que são, como se estivessem proibidos de errar ou tivessem que assumir os erros e as incapacidades dos outros, desde logo do próprio Estado.
Olhando de novo para o caso particular do futebol, não consigo deixar de concluir que tal como nele, são dois tipos de emoções diferentes que podem ajudar a explicar a forma como vemos os Juízes e os Médicos e os seus eventuais erros: desde logo o desgosto provocado pela derrota, procurando nós no último de toda a cadeia em causa a responsabilidade para o nefasto acontecimento. Sem dúvida que das suas decisões, existe uma relação directa com o ser humano, delas podendo sobrexistir drama na forma de prisão ou morte, mas convém pensar que muitas outras profissões há que do erro podem ocorrer mortes, e ninguém as tem na ponta da caneta e da boca. Depois, a típica inveja lusa, sobretudo daqueles que ganham mais do que nós, como se fosse obrigatório nivelar os salários de todos. Se ganham mais, têm mais responsabilidades e por elas devem responder. É uma forma patética e básica de nos vingarmos daqueles que ganham mais, como se assim ficassemos o seu nível, baixando-lhes a vaidade e colocando-os definitivamente ao nosso nível ou ainda mais baixo.
Quanto mais vejo isto, maior o meu respeito pelos magistrados judicias e pelos médicos, e maior vergonha tenho de viver numa sociedade como esta, que julga demais, condena demais e é incapaz de viver com o outro e com as suas virtudes e defeitos, como se fossem donos de toda a virtude, nunca se enganassem e raramente tivessem dúvidas.
E pela profusão legislativa que por ai vai, qualquer dia ainda somos confrontados com um novo diploma que decretará que todos podem errar, mas que os Médicos e os Juízes estão proibidos de errar.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
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