quinta-feira, 30 de outubro de 2008

REFLEXÕES 1

Ser ou Para Ser

Eis uma realidade imutável, que diariamente nos acompanha ao longo dos tempos.
Expoente máximo desta realidade, os devotos de S. tornaram-se verdadeiros experts na arte de demonstrar que “aquilo que é, parece apenas, não é”, invadindo tudo o que mexe na sociedade civil, agora até como Assistentes num processo, quando estão ausentes em tantos mais importantes e prementes do que este.
Quantas vezes maltratamos aqueles que são simples na forma de ser, de se vestir e de se apresentar, porque dele colhemos a ideia que em nada pode contribuir ou ameaçar a nossa vida pessoal e profissional, enquanto bajuladores desfazemo-nos em atenções para os que bem se vestem, bem se apresentam, como se fossem pessoas acima de qualquer suspeita, e bem posicionados na vida, sinal que podem ameaçar-nos ou a vir a ser-nos úteis no futuro?
Sem que seja regra, a maior parte das vezes os primeiros parecem aquilo que não são, e os segundos são aquilo que não parecem.
Não é difícil encontrar exemplos desta realidade, mas entre tantos escolhi esta história verídica, que é apenas uma de muitas.
Um médico de Lisboa foi alvo do furto da sua carteira pessoal. Na mesma encontrava-se o seu cartão VISA.
Naturalmente fez as comunicações necessárias para o seu banco.
Ao receber o extracto desse cartão, constatou a aquisição de diversas obras de ourivesaria, num montante razoavelmente elevado (cerca de mil Euros), aquisição essa efectuada no próprio dia do furto.
Consciente que a venda só poderia ter acontecido por o vendedor não ter respeitado a regra de identificar o portador do cartão, confirmando tratarem-se da mesma pessoa (o portador do cartão e o nome inserido no cartão), o que responsabilizaria o mesmo pelos danos provocados, pensando que aquele seria um mero funcionário, para quem o montante sempre seria elevado, dirigiu-se à ourivesaria em causa para apurar este facto, a possível identificação do comprador e oferecer-se para suportar ele próprio os danos.
Este nosso médico é alguém que nunca teve grandes preocupações e exigências na sua forma de vestir. E lá foi até à ourivesaria.
Ali chegado, a funcionária, olhando aquela criatura de jeans, camisa entreaberta e cabelos em desalinho, logo o definiu como um não comprador, como alguém com menor interesse para si, tendo-lhe oferecido um tratamento desinteressado e mesmo algo rude.
O médico registou o tratamento menor a que foi sujeito e disse-lhe então que ali tinham sido feitas compras com o seu cartão, perguntando porque não tinha pedido a identificação ao portador do mesmo.
Sabe, respondeu a funcionária, o senhor estava tão bem vestido e era tão educado que nunca me passou pela cabeça que não fosse o próprio.
Recordando a forma como fora tratado pela funcionária, por certo pela forma como estava vestido, o médico encerrou a conversa dizendo-lhe:
Sabe, eu vinha aqui para lhe dizer que não se preocupasse que eu suportava os danos, mas como estou vestido de forma simples não lhe mereci consideração, pode ir pedir ao ladrão, que estava tão bem vestido e era tão educado, que lhe devolva os mil Euros.
Não sei se é mais uma consequência do nacional porreirismo tão típico dos portugueses, ou se gostamos mesmo é de ser enganados, ou ainda se é o tradicional low profile, que nos faz fugir de qualquer situação que possa implicar qualquer conflito, para cultivarmos nós próprios a imagem de tipos porreiros e educados.
Qualquer coisa será, mas que não é normal, não é.
Talvez fosse bom meditarmos nisto.

Sem comentários: